Pedro Ramalho

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LOJA UP

ISBN 978-989-98808-6-3

Edição CIAMH, FAUP

Ano 2015

Idioma Português

Número de Páginas 120

Dimensão 14.5x22cm

Sobre o colecção

“Trata-se de uma colecção de entrevistas feitas pelo arquitecto Nuno Lacerda Lopes. São conversas entre arquitectos da Escola do Porto onde se procura compreender o processo de construção de um ideal de arquitectura, de profissão, de sociedade e de escola, tendo por base uma reflexão pessoal e aberta e até esclarecer as inquietações teóricas e práticas bem como as circunstâncias que fundamentam a arquitectura portuguesa dos dias de hoje.”

Excerto - primeira pergunta da entrevista a Pedro Ramalho

“Boa tarde, Arquitecto e Professor Pedro Ramalho, docente da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, um dos mais conceituados arquitectos portugueses, com experiência notável no domínio dos equipamentos públicos e da habitação colectiva, entre outros trabalhos que tem realizado ao longo de várias décadas de prática profissional e que tem contribuído com grandes obras para a nossa melhor arquitectura nacional.
São vários os edifícios notáveis, desde o Bloco da Pasteleira, a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, a Cooperativa das Sete Bicas, o conjunto para o INH em Guimarães (entre outros), como as suas inúmeras habitações unifamiliares que projectou. São tantos trabalhos, que não seria fácil enunciá-los a todos. Mas, de qualquer modo, gostaria que me falasse da experiência, desta longa experiência académica e profissional, e que fizesse uma revisita aos seus edifícios de habitação, à sua forma de entender a habitação. Começava por lhe perguntar, qual foi a sua formação? Como foi essa formação? Quais foram as suas influências? Qual era a realidade de Portugal? Como é que um arquitecto começa a trabalhar?


Bom, eu entrei na Escola de Belas Artes (salvo erro em 1955) com muita alegria e entusiasmo. Vivia-se um regime autoritário e retrógrado em que o ensino era controlado ideologicamente. O liceu não foi (de todo) uma casa simpática e quando finalmente entrei nas Belas Artes passei para um mundo completamente diferente. A relação entre professores e alunos era algo que me parecia verdadeiramente excepcional.
Quando entrei na Escola ainda vigorava a “velha reforma”, que frequentei durante um ano lectivo. Depois, quando a reforma de 57 se iniciou, por conselho do Mestre Carlos Ramos, voltei atrás; era um ano que se perdia, mas colocava-se uma grande esperança na reforma do ensino da arquitectura, nomeadamente na actualização dos seus programas. Foi uma decisão difícil, mas que no fundo, tomei com entusiasmo.
Sem dúvida que a “nova reforma” veio trazer ao curso de arquitectura uma nova credibilidade em termos pedagógicos. Introduziram-se disciplinas que não existiam antes, ligadas às tecnologias mas também à reformulação da Teoria e História da Arquitectura. O que penso que foi profundamente negativo foram os dois anos propedêuticos na Faculdade de Ciências. Nessa época todos os cursos universitários de ciências eram obrigados a essa frequência, que não era mais do que um “filtro” no difícil acesso ao ensino superior.
No curso de arquitectura foi profundamente negativo e dramático, foram verdadeiros anos de “chumbo”. Foi um desastre que levou 10 anos a reparar.
Pela minha parte o convite que o Otávio Filgueiras me fez, no fim de 57, para integrar o gabinete (que montava na altura com o Soutinho), permitiu-me fazer o que verdadeiramente me entusiasmava. Cheguei a estar um ano só matriculado no Curso Geral de Física da Faculdade de Ciências, sem ir à Escola, mas trabalhava em arquitectura (como desenhador).
Quando voltei à Escola estava mais preparado que os meus colegas o que me permitiu terminar o curso com alguma facilidade. Posso concluir que a minha formação entre a Escola e o atelier, como de resto era normal entre estudantes de arquitectura, foi boa e permitiu-me entrar na profissão liberal mais cedo.
Quando cheguei à Escola (estamos a falar dos finais dos anos 50) os padrões arquitectónicos tinham como referência Le Corbusier e os arquitectos do Movimento Moderno. Era a escola racionalista, onde pontificava Mestre Carlos Ramos, e as obras exemplares e mais “visitadas” eram as do Losa (Rua de Ceuta, Rua de Sá da Bandeira), do Loureiro (o edifício Parnaso) do Viana de Lima (Bloco de Costa Cabral), Mário Bonito (Bloco do Ouro), mas também em Lisboa o Bloco das Águas Livres do Nuno Teotónio Pereira.
Mas de repente, a estas referências veio sobrepor-se uma nova visão da arquitectura a que não é alheio o Inquérito à Arquitectura Portuguesa e a Obra de Fernando Távora (o Mercado de Vila da Feira, a casa de Ofir, a escola primária do Cedro) e a influência teórica do Zevi com a sua contestação ao Movimento Moderno e a valorização da obra do Wright e o exemplo do Alvar Aalto.
É o que na altura se designava, de forma muito genérica, como movimento orgânico.
Para mim era uma forma diferente de fazer arquitectura, mais humana, menos funcionalista, menos rígida, uma nova linguagem, mas sobretudo considerando o espaço interior como um valor absoluto.
É assim que o Alvar Aalto aparece como referência na Escola e começam as romagens à Finlândia.
Talvez mais do que as visitas de estudo à Finlândia marcaram-me as obras do Alvar Aalto na Alemanha. A torre de Bremen, o bloco no Hansa em Berlim, o centro cultural de Wolfsburg.”